Serra Leoa e o maracujá

Por Ivan Leite, engenheiro eletricista, bacharel em direito, administrador de empresas, Mestre em Eletricidade.

Final da década de 70 ou nos arredores de1980 sobrevivia em Estância a Coopame - Cooperativa Mista de Agricultores de Estancia, duas visões de mundo que buscavam um objetivo comum: o governo militar que estimulou, e muito, ao surgimento e crescimento das cooperativas e colônias agrícolas, dando- lhes terras com infra estrutura de estradas, energia, assistência técnica, doação de equipamentos agrícolas e financiamentos altamente subsidiados e pessoas, com capacidade de liderança, a exemplo de padre Almeida que buscava uma sociedade igualitária. 

Serra Leoa, pais africano, que deixou de ser protetorado britânico em 1961, tinha um modelo de produção agrícola em que o ponto chave era a "junta de comercialização " mecanismo estatal, simples, mas bem bolado, de manter um equilíbrio da renda dos agricultores:
palmito, café e cacau eram comprados no país e revendidos ao exterior a preços estáveis, que não sofriam as gigantescas oscilações de preços tão comuns aos produtos agrícolas. Quando o preço no exterior estava alto, maior do que o preço por ela pago ao serra- loenses, isto gerava um resultado positivo pra a junta que ela utilizava quando a situação invertia-se garantindo um preço mínimo aos produtores que desta forma podiam produzir com maior segurança de rendimentos. 

Em Estância, os cooperados da Coopame entregavam a sua produção à mesma por preços pré-definidos, ano a ano, safra a safra, que lhes garantiam cobrir os custos de produção e terem o necessário ao seu sustento e a cooperativa lhes proporcionar serviços de forma a que todos os cooperados fossem melhorando de vida que era o objetivo comum do governo e dos seus líderes à época. 

Aqui, dou meu testemunho de uma das possíveis causas do fracasso:
- Naquela época, o carro chefe da produção agrícola no sul de Sergipe, era a laranja que nos colocava na honrosa posição nacional de segundo maior produtor do país, atrás apenas de São Paulo. 

Eis que surge ele, o maracujá, fruto de rápido desenvolvimento em que do plantio à colheita inicial bastavam oito meses. Chegou em grande estilo, proporcionando lucros fantásticos a quem os plantou. Inclusive as cooperativas também deveriam ter sido beneficiarias deste lucro, capitalizando- se para enfrentarem os períodos de vacas magras, por futuras frustrações de safras causadas por sêcas ou pragas, ou queda dos preços no mercado. Entretanto a ambição humana e o desejo de resultados individualistas a curto prazo levou muitos, provavelmente a maioria, a não entregarem o maracujá às cooperativas pelo preço pré-ajustado e desviaram a produção vendendo por preços muito maiores a atravessadores, à indústria e no comercio. O lucro destes foi alto, fácil, porém injusto e teve um alto custo futuro, mesmo que não como condição exclusiva,a derrocada das cooperativas. 

Mesmo não sendo fazendeiros de tempo integral, meu pai além de criar gado, plantava coco, laranja, mandioca (que merece uma futura crônica) e claro fomos estimulados a plantar o maracujá. 

Meu pai, Jorge Prado Leite, de espírito pioneiro desenvolvimentista e que tinha enorme satisfação em disseminar as boas práticas agropecuárias a exemplo da cessão para pesquisa de grande parte do coqueiral do Crasto para estudos científicos de adubação e defensivos agrícolas, em ter sido o pioneiro na região sul de Sergipe da inseminação artificial, abrindo as portas para que dezenas de fazendeiros viessem conhecer esta técnica revolucionaria, também foi um dos pioneiros na polinização artificial do maracujá, com o que dizia-se que mais do que dobraria a prutividade da produção de maracujá.

Vizinha à fazenda Engenho de Ferro tinha uma família de sitiantes com uma matriarca exemplar, dona Dulce, que com sistemática frequência a víamos, nos finais de semana, que eram os dias que íamos supervisionar os trabalhos feitos, sair com uma carroça cheia e bem arrumada com jacas, bananas, mandioca e outros produtos a depender da estação do ano, e com os seus filhos impecavelmente arrumados. 
Dona Dulce queria uma renda adicional e meu pai a enviou para fazer um treinamento de polinização do maracujá. No seu retorno, no escritório da fabrica assisti a uma cena divertida e inesquecível. 
Fui chamado, aos risos por meu pai, para que ela repetisse o que acabará de lhe dizer. E ela disse:"Dr. Jorge o senhor vai precisar comprar um caminhão. -Ao que meu pai perguntou: para transportar os maracujás dona Dulce? - E ela respondeu, não Dr. Jorge para levar o dinheiro!! Vai ser tanto maracujá que vai dar uma ruma de dinheiro."

Nós e muitos plantamos maracujá face ao excelente preço. Porém no ano seguinte houve uma super-safra e o preço despencou. Não havia sequer compradores. 

Fui em uma caminhonete Chevrolet A-10 azul cheia de maracujá tentar vendê-los no CEASA em Aracaju. Ninguém quis comprar e sequer me deixaram descarregar, mesmo de graça. 
Voltei com o maracujá que apenas serviu de alimento para o gado. 

Imagino o sufoco dos pequenos produtores que tinham nele a sua renda principal. A Cooperativa ainda ajudou a muitos dos pequenos produtores, seus cooperados. Porém, como ela não se capitalizou, pois quando o preço estava bom ela não pode fazer a sua reserva financeira, já que os cooperados apropriaram-se individualmente do excelente resultado do ano anterior. Foi o complemento da derrocada da cooperativa. 

Curiosamente em Serra Leoa a ambição também causou o fracasso. 

Pois, ao termino do protetorado britânico em 1961 os agricultores recebiam 50% do valor no mercado internacional o que já nos parece pouco. Mas, piorou e muito com os paramounts chiefs ( chefes supremos) instituídos pelos britânicos que consistia na cooperação de chefes tribais preexistentes que receberam este pomposo título para tornarem-se parceiros facilitando a dominação britânica, continuando a existir nos novos governos, o primeiro cujo partido era o SLPP- Partido Popular da Serra Leoa e o seu sucessor e opositor APC-All People's Congresso Party ( Partido de Todo o Povo no Congresso) que reduziram o pagamento a escorchastes 10%.

Ou seja de cada 10 produzido o governo ficava com 9 e o produtor com mísero 1.
Desestimulo geral, baixa produtividade e domínio sob injusto sistema eleitoral. 

Em ambos a ambição e visão de curto prazo levou ao fracasso economico: aqui dos cooperados e lá dos líderes. 

Receita pronta para resolver, ainda não encontrei. 

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