FERNANDO LEITE: O BRASA DA LIBERDADE

1964. Ano doloroso para a família Prado Leite. No dia 05 de maio daquele ano, morre dona Carmem Prado Leite nos braços de seu primogênito Jorge. No apartamento da família, em Copacabana, no Rio, Jorge prende-se ao corpo sem vida da sua amada genitora, em copiosas lágrimas, resistente aos apelos de sua cunhada Baby e de seus irmãos, até que, enfraquecido pelos sentimentos de perda, cede e deixa que seu tio Sílvio Leite e seu irmão Fernando conduzam o corpo de dona Carmem ao caixão no saguão do prédio onde residia o Senador Júlio César Leite, alguns dos filhos e netos, dentre os quais Otávio, filho de Fernando e Violeta.
Não fora esse o único acontecimento marcante naquele ano. Em Estância, as águas dos Rios Piauí e Piauitinga invadiam a Fábrica Santa Cruz, devido a chuvas que chegaram em abril e que se estenderam pelos meses seguintes.
Ainda em 64, morre precocemente o Senador Francisco Leite Neto, sobrinho de Doutor Júlio, com apenas 54 anos de idade. Líder do PSD – Partido Social Democrata, Leite Neto, irmão da ex-Desembargadora Clara Leite de Rezende, era um homem tímido, discreto, porém corajoso e honesto. Deixou uma grande lacuna na vida política sergipana.
Além do trauma familiar que se abateu sobre os Prado Leite, o Brasil é tomado pela “revolução” de 31 de março. Preside a Assembléia Legislativa de Sergipe, o Engenheiro Agrônomo Fernando Prado Leite, irmão de Doutor Jorge Prado Leite e, portanto, tio do nosso biografado Ivan Santos Leite.
Com apenas 32 anos de idade, formado pela Lusiana State University, nos Estados Unidos, Fernando Leite era compadre do ex-presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira, padrinho do seu filho Otávio Leite (PSDB), hoje Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, onde crescera ao lado do seu avô paterno, de saudosa memória, o Senador Júlio César Leite.
Pois bem, Fernando Leite presidia a Assembléia Legislativa de Sergipe quando o Exercito tomou o Poder. Sabendo os militares que Leite era compadre de JK, que viera a Sergipe em setembro de 1962 exclusivamente para batizar o pequeno Otávio, tentou amedrontá-lo, exigindo-lhe que cassasse deputados que supostamente eram subversivos. Essa era também uma maneira de humilhar o jovem parlamentar e de testar-lhe a fidelidade à causa da Revolução (ou contra-Revolução, como prefiro). Inteligente e íntegro, “O Brasa”, cognome dado ao então Deputado Fernando Prado Leite durante a campanha eleitoral de 1966, não reconhecendo a legitimidade dos Quartéis não se rendeu às imposições de seus líderes,
Fernando casou-se jovem, com apenas 26 anos, com a bela e elegante Violeta Santos Silva Leite, com quem teve seis filhos: Ricardo, Fernandinho, Otávio, Carmem Luíza, Maria Antônio e Violeta (filha).
Havia em Sergipe, naquele ano, uma coalizão, sob a liderança de jovem advogado Antônio Fernandes Viana de Assis, então Deputado Estadual pelo PR, que denunciava a Golpe Militar e que se solidarizava com o Governador deposto Seixas Dória, líder dissidente da UDN – União Democrática Nacional, e que então se encontrava no PSD – Partido Social Democrático. Faziam também parte dessa coalizão opositora as pequenas agremiações PR – Partido Republicano, e PRT – Partido Rural Trabalhista. Cumpre lembrar que o PR rivalizava em tamanho e poder político com o PSD e a UDN.
Em 1º de Abril, Viana de Assis usou a tribuna da Assembleia Legislativa de Sergipe para combater o Golpe Militar. As pressões sobre o presidente do Parlamento sergipano não tardaram. Fernando Prado Leite recebeu do Comandante da 6ª Região Militar, General Mendes Pereira, a Resolução nº 09, em que determinava a cassação automática de Viana de Assis (PR), do também advogado Cleto Sampaio Maria (PRT), de José Nivaldo dos Santos (PR) e Baltazar José dos Santos (PSD). Prado Leite não se rendeu. Se fossem cassados, que o fossem com todas as suas garantias constitucionais de ampla defesa e contraditório.
A 6ª Região Militar, com sede em Salvador, tinha jurisdição nos Estados da Bahia, Sergipe e Alagoas.
Essa oportunidade fora dada aos parlamentares em sessão extraordinária no dia 14 de maio de 1964. Diante de abstenções, votos nulos, e votos contrários às cassações, numa demonstração de que os deputados sergipanos não estavam desatentos aos acontecimentos políticos que abalavam o País naquele momento, prevaleceu as cassações, combatidas por meio de Mandados de Segurança impetrados junto ao Tribunal de Justiça de Sergipe, que se auto julgou incompetente para analisar atos discricionários do Poder Legislativo.
Fernando Leite cumpriu seu mandado parlamentar com visível e indeclinável senso de justiça, sendo uma voz atuante em defesa das liberdades democráticas, ainda que num dos mais tristes momentos da história brasileira e sergipana.


Texto do livro "Entre o Chefe Invisível e O Homem Chamado Trabalho: Ivan Leite - A Biografia" (no prelo).







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