O BEIJO QUE NÃO DEI


Primeira noite de mais uma primavera,
da amada que acolhe minha amada,
a vi adormecida em resonar de gata,
a um ou dois palmos de meu corpo,
presa fácil para um beijo roubado,
que se tivesses acordada ser-me-ia
dado, merecedor eu fosse, o que
usualmente me sói acontecer!
Olhei, humedeci os lábios, antevendo
a dupla colisão: superior superior,
inferior inferior! Não sei o porque desta
classificação esdrúxula de ser melhor
o de cima que o de baixo, para aquela
classificação ordenatoria terem recebido.
De decúbito dorsal, virei- me, silente,
para apoio lateral, arqueando o tronco,
para de cima para baixo o bote dar.
Eis que de repente titubeei não no meu
desejar: mas, desta feita apenas para
te permitir, exausta que estavas, e não
apenas cansada, continuar a repousar.
Experimentação científica recente,
acerca do poder humano de controlar
o seu imediato querer, em troca de
recompensa maior no porvir, que
neste caso, dar-se-a no novo amanhecer,
reforçou o meu decidir. Vou dormir!
Entretanto, entrementes, registro aqui,
o beijo que não dei. 


Boa noite!
Ivan Leite
22/09/2016
Início da primavera

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