RELIGIOSIDADE NA VILA COLONIAL
A Igreja Católica detinha os monopólios ideológico e religioso na organização da sociedade colonial e regulamentava o cotidiano das vilas pela orientação ética, pela catequese, pela educação, pelo ritmo semanal e pelo calendário anual, fazendo-se presente também em momentos importantes na vida colonial, tais como o batismo, a eucaristia, o casamento, a extrema-unção, os funerais, a penitência dentre outros.
Na colônia, a Igreja Católica, enquanto instituição, desempenhava um papel de grande importância, muitas vezes igualando-se à administração civil e isso se devia principalmente à identidade de interesses e aos propósitos da Igreja e do Estado, o que tornava sua colaboração indispensável à administração da colônia. Ela estava presente em todos os momentos da vida dos membros da colônia, desde seu nascimento até sua morte. No âmbito da religiosidade, nota-se marcadamente a presença da Igreja nos trópicos também através da atuação do Santo Ofício, que aqui estava para garantir que os desvios à religião não fossem intensos e claros. Principalmente por ser um local que recebeu grande quantidade de cristãos-novos, a colônia era alvo da atuação da Inquisição, com visitações constantes, que investigava as denúncias que eram feitas na colônia e remetidas a Lisboa.
É importante ressaltar que muitas vezes um indivíduo podia ser denunciado por desafetos e acusado de heresia, mesmo sem ter tido nenhum tipo de envolvimento com algo que pudesse ser considerado herético ou passível de investigação. Os autos de visitações eram constantes na colônia e se direcionavam, na maioria das vezes, para os cristãos-novos. Havia aqueles que viviam conforme as leis da Igreja, que constituíam a norma e não integravam o auto de visitações. Este procurava os comportamentos desviantes que era preciso punir, retirar da vida colonial ou mesmo buscar enquadrar não apenas os que abalavam os dogmas da fé, como também aqueles que introduziam elementos de uma cultura antiga.
No início da colonização, era frequente o hábito de blasfemar contra Deus, ironizar os dogmas da fé, desacatar o clero, os santos e até o próprio Deus. Ressalta-se que nos primeiros 80 anos de colonização portuguesa, magia e religiosidade se mostravam semelhantes na metrópole e na colônia. Nesse sentido, Souza afirma:
“Apresentando elementos de continuidade com relação à cultura e à religiosidade popular da Europa no início da Era Moderna, as práticas religiosas da Colônia se confundiam muitas vezes com práticas mágicas e de feitiçaria, em quase tudo semelhantes aos casos metropolitanos”.
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(SOUZA, Laura de Mello E. Inferno atlântico. Demonologia e colonização Séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 51.) ______________________
A feitiçaria era muito utilizada para garantir o amor dos homens e muitas mulheres acusadas de bruxaria na colônia haviam sido degredadas de Portugal acusadas de crime semelhante.
“Havia grande ênfase na magia amorosa: recorria-se a mulheres tidas como feiticeiras para obter sucesso nos amores utilizando pós, rezas, filtros, poções, fervedouros, ossos de enforcados, conjuro de demônios. Indicando tal esfumaçamento entre práticas mágicas e religiosidade popular, algumas mulheres foram acusadas (e confessaram), na Bahia de fins do século XVI, de usar as palavras de consagração da missa durante o ato sexual para, com isso, prender o marido ou o amante; uma delas recorreu ainda a certa mistura de vinho e pedra d’ara, ou seja, a pedra do altar sobre a qual se oficia a missa. Outras, com seus filtros estranhos, confeccionados a partir de secreções ou excrementos, confirmam o papel do baixo corporal na cultura popular de então”.
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(SOUZA, Laura de Mello E. Inferno atlântico. Demonologia e colonização Séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 51.) ______________________
--- Fonte: www.estacio.br

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